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𐕣

Carrego o peso de uma cruz invertida. Sou um ser da escuridão, um criador de demónios. As minhas mãos não curam, mas transbordam em sangue, fazendo com que tudo que toque seja manchado e escorregue entre os meus dedos. Alimento-me do ódio das vozes que vivem cá dentro.  Os meus olhos vermelhos, já só vêem um mundo cinzento. Escondo-me do espelho, como se fosse Senhor das Trevas, que tem aversão a si mesmo. A minha jornada incentiva Sísifo e o meu desejo de morte inspira Prometeu. Até hoje pergunto-me como é que a minha mente ainda não cedeu. Mas o que é que aconteceu? Nasci num mundo repleto de luz e tudo escureceu? Ou então fui eu? Fui eu que perdi a cor? Se já chorei, deverá ter sido há tanto tempo. A minha alma secou e sobrou um deserto de sofrimento. Pensei que um dia fosse voar, mas as minhas asas queimaram, reduzindo-as a cinzas levadas pelo vento. Tento iluminar o escuro dentro de mim com cristais que me cortam e alteram a mente. Que deprimente, ouvir aquele que prega a Luz ...
Mensagens recentes

chá sem água

Quem diria que aquele que outrora se perdeu nos meandros das palavras, aquele que com a pena desenhava versos nascidos do abismo da alma, aquele que sentia o murmúrio do vento como quem ouve um poema, um dia viraria as costas àquilo que lhe era essência? Abandonei o papel e a caneta como quem abandona um amor não correspondido, sem saudade, sem olhar para trás. As palavras que sangraram dos meus dedos secaram a alma até ela se partir. Perdi o direito de ser poeta quando deixei de sonhar, e ao deixar de sonhar, calei o coração. Sequei-me de emoção como quem, no deserto, tenta fugir da sede. E assim, ao arrancar-me da poesia, criei uma ferida que sangra mais do que os versos que antes derramava. Julguei-me forte. Enganei-me. Que força há naquele que se nega a partilhar com o mundo o peso da sua dor? Que coragem existe em quem vira as costas aos seus sonhos, apenas por temer a dor de os seguir? Que valentia reside em quem se despoja da sua alma por medo de a sentir? E que cavaleiro será o...

Bolachas em Noites de Estrelas

 "Acho que nunca te disse isto, mas tu és a pessoa com o coração mais puro que alguma vez conheci.", disse-me antes de arrancar o meu sorriso e derramar-me pelo chão. "Valoriza-te. Amas-a mais do que amas a ti. Seguras-te numa tentativa desesperada de salvar um amor que já não existe. Agarras-te com todas as tuas forças e apenas te magoas, como se não bastassem as feridas que ela deixou. Não salves algo que já morreu, salva o lado bonito da tua alma que ainda não desapareceu." Sempre quis viver um amor como os da televisão. Daqueles que mexem com tudo, com o meu sangue, com as minhas entranhas e com o mundo à minha volta. Aqueles amores que fazem a realidade oscilar e nos impedem de distinguir aquilo que é real daquilo que são palpites mágicos de coração. Sento-me numa praia, com grãos do que já fora a minha alma, de frente a um mar que transporta as minhas lágrimas nas suas ondas. O vento sereno bate-me na orelha e murmura vozes de ti. Foste embora sem aviso e deix...

Borboletas de Asas Pétala de Girassol

E se pudéssemos ter as estrelas? Todas as flores do planeta, poderíamos tê-las? Seríamos os donos do nosso pequeno mundo. Cansarmo-nos, explodi-lo e construir o segundo. E se criássemos o nosso significado de amor? E se coloríssemos um universo sem cor? Brincaríamos de Criador e conceberíamos um mundo sem perda e dor. Farias isso comigo? Como teu amor, alma igual e amigo? Nunca soube rimar, desajeitado. Até encontrar-te, meu verso emparelhado. Dançamos entre poema cruzado e interpolado, como emoções de poeta lado a lado. As velhinhas já murmuram sobre nós: "Ainda ontem cantaram até ficarem sem voz." "Sempre juntos, não saberão viver sós?" Deixai-nos em paz, avós, o nosso amor não vos cabe a vós. E... se pudesses ter as estrelas? Todas as flores do mundo, se pudesses tê-las. A elas e tudo o que desejas. Ainda desejarias ter-me a mim?

Consciência

Palavreio comigo mesmo todas as noites. Dialogámos por horas, numa conversa cheia de palavras e sem um único ponto final. Nunca entendemos muito do outro, apesar de trocarmos palavras constantemente. Eu, não consigo perceber muito de mim. Eu, também não é capaz de chegar até mim. A tagarelice não acaba, mesmo que sejam apenas palavras sem peso que no fim são sempre levadas pelo vento. Talvez seja melhor assim. Conhecermos pouco um do outro. Palpar só aquilo que é luz e companhia e ignorar as profundezas de dor e tormento. Ele gosta de escrever, assim como eu. Todavia, ser poeta não implica dominar os sentimentos. Tal como ser um guerreiro não significa tolerar o sofrimento. Ele chora à noite, assim como eu. Talvez o fruto da sua amargura também seja um pouco do meu. Ele coloca as mãos na cabeça, numa tentativa de remover as vozes que lá se instalaram. Ele é tal como eu. Náiades fluem pelos seus olhos e numa tentativa de ajudá-lo, pouso as minhas mãos sobre as minhas costas. Onde há fum...

↬❪🤍❫ Bem vindo de volta, velho amigo

     V ivo numa linha ténue e frágil entre a realidade e o imaginário. Esse cordão divisório toma a forma de coração em ambas as pontas com nós delicados que facilmente se soltam com o palpitar do meu peito. As nuvens de algodão chovem sobre as minhas veias e forma-se uma corrente de girassóis no meu sangue. Como se engolisse um pouco de primavera, as borboletas fazem do meu estômago o seu lar e voam sem parar, como se estivessem a tentar contar-me algo de importante que não tenha percebido. O meu pequeno amigo pulsante, tem batido com uma intensidade de que já se havia esquecido. Rejuvenesceu. Uma sensação que já havia se tornado uma simples recordação, regressa até mim, formando assim, um mundo de contos fantásticos e fábulas avassaladoras aqui dentro. As engrenagens do lógico e coerente romperam-se e deixaram de desempenhar a sua função, dando assim espaço apenas ao sentimental e emocional para funcionar. Tenho sentido-me inquieto, como se algum insecto percorresse o m...