Carrego o peso de uma cruz invertida. Sou um ser da escuridão, um criador de demónios. As minhas mãos não curam, mas transbordam em sangue, fazendo com que tudo que toque seja manchado e escorregue entre os meus dedos. Alimento-me do ódio das vozes que vivem cá dentro. Os meus olhos vermelhos, já só vêem um mundo cinzento. Escondo-me do espelho, como se fosse Senhor das Trevas, que tem aversão a si mesmo. A minha jornada incentiva Sísifo e o meu desejo de morte inspira Prometeu. Até hoje pergunto-me como é que a minha mente ainda não cedeu. Mas o que é que aconteceu? Nasci num mundo repleto de luz e tudo escureceu? Ou então fui eu? Fui eu que perdi a cor? Se já chorei, deverá ter sido há tanto tempo. A minha alma secou e sobrou um deserto de sofrimento. Pensei que um dia fosse voar, mas as minhas asas queimaram, reduzindo-as a cinzas levadas pelo vento. Tento iluminar o escuro dentro de mim com cristais que me cortam e alteram a mente. Que deprimente, ouvir aquele que prega a Luz e o Amor e saber que ele mente. Que desesperante, sentir-se só num mundo cheio de gente. Eu e o Escolhido seguimos caminhos diferentes. Mas não seria óbvio? Vivemos em realidades com um contraste tão evidente.
Falava tanto em humanidade e amor e no entanto, só vejo destruição, crueldade, ódio e rancor. Seguia espalhando a palavra do Senhor, já eu repugno deus, seja ele qual ele for! Talvez Ele nem esteja entre a gente. Talvez o mundo seja regido por chifres e um tridente. Talvez eu e o Diabo não sejamos tão diferentes. O Inferno de Dante está cravado bem na minha mente. E vivo numa divina comédia, onde todos riem das minhas tentativas falhadas, onde todos gozam com os meus gritos de desespero, onde todos batem na pinhata enquanto estou pendurado no teto com a corda ao pescoço. Os vermes alimentam-se das lágrimas que deito. Soltam dinamite e incendeiam os céus para o seu puro entretenimento. Esvaiem-se às centenas em sangue e chamam a isso ardimento? Em que mundo vivemos, onde a guerra para alguns é sustento? Dividem a humanidade em classes, onde a elite esbanja em Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Gula, Inveja e Preguiça, enquanto o injustiçado pelo acaso morre sozinho num beco, com o azedo da angústia que carrega em si mesmo. Fomos expulsos do Paraíso não pelo fruto proibido, mas por sermos um fruto podre por dentro. Então, sigo por este mundo sanguinário, a carregar a minha cruz ao contrário, julgado por blasfémia e loucura, por ter tentado em um mundo onde já se nasce condenado.
E se pudéssemos ter as estrelas? Todas as flores do planeta, poderíamos tê-las? Seríamos os donos do nosso pequeno mundo. Cansarmo-nos, explodi-lo e construir o segundo. E se criássemos o nosso significado de amor? E se coloríssemos um universo sem cor? Brincaríamos de Criador e conceberíamos um mundo sem perda e dor. Farias isso comigo? Como teu amor, alma igual e amigo? Nunca soube rimar, desajeitado. Até encontrar-te, meu verso emparelhado. Dançamos entre poema cruzado e interpolado, como emoções de poeta lado a lado. As velhinhas já murmuram sobre nós: "Ainda ontem cantaram até ficarem sem voz." "Sempre juntos, não saberão viver sós?" Deixai-nos em paz, avós, o nosso amor não vos cabe a vós. E... se pudesses ter as estrelas? Todas as flores do mundo, se pudesses tê-las. A elas e tudo o que desejas. Ainda desejarias ter-me a mim?
Comentários
Enviar um comentário