Quem diria que aquele que outrora se perdeu nos meandros das palavras, aquele que com a pena desenhava versos nascidos do abismo da alma, aquele que sentia o murmúrio do vento como quem ouve um poema, um dia viraria as costas àquilo que lhe era essência?
Abandonei o papel e a caneta como quem abandona um amor não correspondido, sem saudade, sem olhar para trás. As palavras que sangraram dos meus dedos secaram a alma até ela se partir. Perdi o direito de ser poeta quando deixei de sonhar, e ao deixar de sonhar, calei o coração. Sequei-me de emoção como quem, no deserto, tenta fugir da sede. E assim, ao arrancar-me da poesia, criei uma ferida que sangra mais do que os versos que antes derramava.
Julguei-me forte. Enganei-me. Que força há naquele que se nega a partilhar com o mundo o peso da sua dor? Que coragem existe em quem vira as costas aos seus sonhos, apenas por temer a dor de os seguir? Que valentia reside em quem se despoja da sua alma por medo de a sentir? E que cavaleiro será o que abandona a sua espada? Sem a minha caneta, sem a minha poesia, que sobra de mim?
Há tempos que me perdi de mim mesmo, perdido nesse vazio onde as palavras não ecoam. Percebi que a vida não é feita apenas para os que vencem, mas para os que lutam, para os que sentem, para os que choram e amam. Para os que, no caos das emoções, ainda ousam sonhar. Perdi-me no meio da jornada, esqueci-me de que a fraqueza é, em si mesma, uma razão para continuar. Que homem é completo sem as suas feridas? Que ambição move o coração que já não deseja? Sou fraco, sim, e sou sensível, mas talvez essa seja a minha maior força. As cicatrizes que carrego não são sinais de derrota, mas de crescimento. Tal como o osso se fortalece ao quebrar-se e o músculo ao rasgar-se, também a alma renasce das suas feridas.
Sou feito de remendos, e esses remendos são a narrativa da minha existência. São os traços da minha vida, as lições, os renascimentos que me fazem avançar. Não é a ausência de fraqueza que me faz forte, é o saber viver com ela.
Passei anos a escrever para os outros, a dedicar versos a um amor inalcançável, sem perceber que o destinatário devia ser eu. Eu sou aquilo que escrevo, e as minhas palavras são o espelho da minha alma. Não preciso de alguém que me faça sentir para escrever, pois o meu coração bate por si mesmo, para me lembrar que estou vivo, que tenho um caminho a seguir, que ainda há algo por sentir neste mundo.
Talvez, um dia, eu volte a escrever.
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