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↬❪🤍❫ Bem vindo de volta, velho amigo

    Vivo numa linha ténue e frágil entre a realidade e o imaginário. Esse cordão divisório toma a forma de coração em ambas as pontas com nós delicados que facilmente se soltam com o palpitar do meu peito. As nuvens de algodão chovem sobre as minhas veias e forma-se uma corrente de girassóis no meu sangue. Como se engolisse um pouco de primavera, as borboletas fazem do meu estômago o seu lar e voam sem parar, como se estivessem a tentar contar-me algo de importante que não tenha percebido. O meu pequeno amigo pulsante, tem batido com uma intensidade de que já se havia esquecido. Rejuvenesceu. Uma sensação que já havia se tornado uma simples recordação, regressa até mim, formando assim, um mundo de contos fantásticos e fábulas avassaladoras aqui dentro. As engrenagens do lógico e coerente romperam-se e deixaram de desempenhar a sua função, dando assim espaço apenas ao sentimental e emocional para funcionar. Tenho sentido-me inquieto, como se algum insecto percorresse o meu corpo e encontrasse o destino na minha mente. O meu coração parece ter percebido do que esta sensação se trata e por isso, tem doído, como se detivesse somente más memórias destas percepções. Mesmo assim, tudo isto é reconfortante, como se estivesse constantemente a viver o calmante e agradável pôr do sol. Tenho uma vaga ideia do que possa ser, mas prefiro não tomá-la como certeza, com medo de reviver pesadelos que preferia que ficassem enterrados toda a minha vida. O meu peito vibra, como se uma marcha estivesse a decorrer lá dentro. O batuque é constante, mas não incomoda, é quente e nostálgico. Tudo ao meu redor embelezou-se, como se fosse solto um pó mágico por todos os cantos do universo.

    É-me tudo tão familiar, como uma paisagem que havia visitado antes. Os cheiros, os sons, as inquietações, as dúvidas e o aperto no peito, são todos conhecidos meus. Incomoda-me ligeiramente sentir tudo isto novamente, como se sentisse uma inquietação que diz-me que algo irá correr mal e consequentemente despedaçar-me como estilhaços de vidro. Um medo de ir em direção à maré e ser levado para uma localização remota infestada de demónios, como se os que enfrento todas as noites já não bastassem. No entanto, não deixa de ser prazeroso. Uma chama que em tempos ardia intensamente no profundo do meu tórax, voltou a queimar com o mesmo ardor. A luz do sol que atravessa sorrateiramente pelas fissuras das persianas queima. O ar fresco da manhã envenena os meus pulmões. Começar um novo dia significa explorar mais deste sentimento, que é uma mistura de desconhecido e de velho amigo. Uma explosão de sensações percorre-me o corpo, da pele à própria alma, cada vez que descubro mais sobre esta incógnita tão familiar.

    A cada mexer dos ponteiros do relógio, esta neblina torna-se mais transparente. As dúvidas lentamente transformam-se em certezas absolutas. O mundo estremece em grandes frequências. É amor. Esta emoção que faz um poeta ser realmente um poeta. Os meus joelhos oscilam com esta realização, receando que tenha voltado para assombrar-me novamente. Sorrio e rio-me. Voltou. Voltou mesmo. Voltou o que julgava nunca mais voltar. É amor. Ele voltou.

    Regresso à superfície do mar que me afogara outrora. O meu corpo está leve, talvez como já esteve antes, numa memória distante que não sou capaz de recordar. Esvaio-me em sentimentos de tantas cores distintas que tingem o meu redor, formando uma obra de arte, digna de milhares de olhares em um museu, como se o que está cá dentro fosse uma magia extraordinária que não se conseguia manter enclausurada, soltando-se para voar livremente e ter a Natureza como confidente. Solto um suspiro rico em pedaços de coração e suavemente fecho os olhos, procurando sentir com mais intensidade este todo, que apesar das cores radiantes, era muito mais, algo vindo das profundezas do que é mais meu do que qualquer outra coisa alguma vez será. A brisa de uma primavera fresca esfria-me a pele, que contrasta agora com o calor intenso da alma que havia se mantido apagada por tanto tempo. A cada respirar, o meu corpo vai ficando mais leve como se estivesse lentamente a aprender a voar. A minha alma parece ter reencontrado uma velha amiga e dança em contentamento. Sinto o desabrochar de um jardim de girassóis sobre mim, que brotaram de sementes de serenidade. Forma-se um sorriso em forma de meia lua no meu rosto e sinto os olhos a brilharem como estrelas. As minhas bochechas cor de rubi ardem com mais força que as chamas do canto mais quente do Inferno. O mundo acelera, girando como um moinho de vento em dias de tempestade, sacudindo toda a mistura de sentimentos, criando assim um enorme redemoinho de cores que me carrega com cuidado e ternura para não incomodar. O coração vibra incessantemente numa enorme agitação que se sente nas águas à minha volta. Levo ambas as mãos ao peito numa tentativa de segurar estas emoções intensas na palma da minha mão. De seguida, subo-as até ao rosto corado que está em brasa, numa timidez que avermelha-me ainda mais. Uma sensação de poder para mover montanhas preenche o meu ser, como se nada fosse capaz de me parar. Abro os olhos e estico o braço em direcção ao céu de algodão deixando de vê-lo como um limite. Solto um berro com todas as minhas energias sem saber o porquê de o fazer, como se estivesse a tentar descomprimir tudo que estava armazenado dentro de mim. Doem-me as bochechas de tanto sorrir, o que faz-me sorrir ainda mais, celebrando esta felicidade e calma de que já me havia esquecido ser possível de sentir.



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