Palavreio comigo mesmo todas as noites.
Dialogámos por horas,
numa conversa cheia de palavras
e sem um único ponto final.
Nunca entendemos muito do outro,
apesar de trocarmos palavras constantemente.
Eu, não consigo perceber muito de mim.
Eu, também não é capaz de chegar até mim.
A tagarelice não acaba,
mesmo que sejam apenas palavras sem peso
que no fim são sempre levadas pelo vento.
Talvez seja melhor assim.
Conhecermos pouco um do outro.
Palpar só aquilo que é luz e companhia
e ignorar as profundezas de dor e tormento.
Ele gosta de escrever, assim como eu.
Todavia, ser poeta não implica dominar os sentimentos.
Tal como ser um guerreiro não significa tolerar o sofrimento.
Ele chora à noite, assim como eu.
Talvez o fruto da sua amargura também seja um pouco do meu.
Ele coloca as mãos na cabeça,
numa tentativa de remover as vozes que lá se instalaram.
Ele é tal como eu.
Náiades fluem pelos seus olhos
e numa tentativa de ajudá-lo,
pouso as minhas mãos sobre as minhas costas.
Onde há fumo, também há fogo.
Onde há chuva, há um pedido de socorro.
"Porque choras?" Pergunto-lhe eu.
"Tu choras também", respondeu.
Ele tem razão.
Também verto refrescos de verão.
Ele é tal como eu.
São conversas à chuva,
num escuro de ralo que leva as lágrimas.
São conversas ao vento,
que limpa toda a poeira de emoções quando acabam.
São conversas comigo mesmo,
daquelas que abrem caixas de Pandora,
daquelas que dão luz às manchas negras.
"Bem, está na hora de ir.
Esta é a parte que os demónios
vêm cantar canções de dormir."
Carrego o peso de uma cruz invertida. Sou um ser da escuridão, um criador de demónios. As minhas mãos não curam, mas transbordam em sangue, fazendo com que tudo que toque seja manchado e escorregue entre os meus dedos. Alimento-me do ódio das vozes que vivem cá dentro. Os meus olhos vermelhos, já só vêem um mundo cinzento. Escondo-me do espelho, como se fosse Senhor das Trevas, que tem aversão a si mesmo. A minha jornada incentiva Sísifo e o meu desejo de morte inspira Prometeu. Até hoje pergunto-me como é que a minha mente ainda não cedeu. Mas o que é que aconteceu? Nasci num mundo repleto de luz e tudo escureceu? Ou então fui eu? Fui eu que perdi a cor? Se já chorei, deverá ter sido há tanto tempo. A minha alma secou e sobrou um deserto de sofrimento. Pensei que um dia fosse voar, mas as minhas asas queimaram, reduzindo-as a cinzas levadas pelo vento. Tento iluminar o escuro dentro de mim com cristais que me cortam e alteram a mente. Que deprimente, ouvir aquele que prega a Luz ...
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