Palavreio comigo mesmo todas as noites.
Dialogámos por horas,
numa conversa cheia de palavras
e sem um único ponto final.
Nunca entendemos muito do outro,
apesar de trocarmos palavras constantemente.
Eu, não consigo perceber muito de mim.
Eu, também não é capaz de chegar até mim.
A tagarelice não acaba,
mesmo que sejam apenas palavras sem peso
que no fim são sempre levadas pelo vento.
Talvez seja melhor assim.
Conhecermos pouco um do outro.
Palpar só aquilo que é luz e companhia
e ignorar as profundezas de dor e tormento.
Ele gosta de escrever, assim como eu.
Todavia, ser poeta não implica dominar os sentimentos.
Tal como ser um guerreiro não significa tolerar o sofrimento.
Ele chora à noite, assim como eu.
Talvez o fruto da sua amargura também seja um pouco do meu.
Ele coloca as mãos na cabeça,
numa tentativa de remover as vozes que lá se instalaram.
Ele é tal como eu.
Náiades fluem pelos seus olhos
e numa tentativa de ajudá-lo,
pouso as minhas mãos sobre as minhas costas.
Onde há fumo, também há fogo.
Onde há chuva, há um pedido de socorro.
"Porque choras?" Pergunto-lhe eu.
"Tu choras também", respondeu.
Ele tem razão.
Também verto refrescos de verão.
Ele é tal como eu.
São conversas à chuva,
num escuro de ralo que leva as lágrimas.
São conversas ao vento,
que limpa toda a poeira de emoções quando acabam.
São conversas comigo mesmo,
daquelas que abrem caixas de Pandora,
daquelas que dão luz às manchas negras.
"Bem, está na hora de ir.
Esta é a parte que os demónios
vêm cantar canções de dormir."
Quem diria que aquele que outrora se perdeu nos meandros das palavras, aquele que com a pena desenhava versos nascidos do abismo da alma, aquele que sentia o murmúrio do vento como quem ouve um poema, um dia viraria as costas àquilo que lhe era essência? Abandonei o papel e a caneta como quem abandona um amor não correspondido, sem saudade, sem olhar para trás. As palavras que sangraram dos meus dedos secaram a alma até ela se partir. Perdi o direito de ser poeta quando deixei de sonhar, e ao deixar de sonhar, calei o coração. Sequei-me de emoção como quem, no deserto, tenta fugir da sede. E assim, ao arrancar-me da poesia, criei uma ferida que sangra mais do que os versos que antes derramava. Julguei-me forte. Enganei-me. Que força há naquele que se nega a partilhar com o mundo o peso da sua dor? Que coragem existe em quem vira as costas aos seus sonhos, apenas por temer a dor de os seguir? Que valentia reside em quem se despoja da sua alma por medo de a sentir? E que cavaleiro será o...
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